Quem governa a América? | 03Dez2011 15:25:08

O artigo seguinte é um excerto adaptado do novo e extenso relatório inovador de David DeGraw sobre a destruição financeira dos Estados Unidos. O relatório completo pode ser lido aqui: Analysis of Financial Terrorism in America.
A Elite Económica
“Existe uma guerra de classes, tudo bem, mas é a minha classe,
a classe rica, que está a fazer a guerra, e estamos a ganhar.”
– Warren Buffett, Presidente e CEO da Berkshire Hathaway
Quanta riqueza tem a Elite Económica?
Enquanto 68,3 milhões de americanos lutam para arranjar alimentos suficientes para comer e para 90% da população os salários descem, a riqueza das famílias milionárias dos Estados Unidos atingiu um nível sem precedentes. De acordo com um extenso estudo da empresa de auditoria e consultoria financeira Deloitte, as famílias milionárias dos Estados Unidos têm actualmente 38,6 biliões de dólares de riqueza. Em cima dos 38,6 biliões de dólares revelados por este estudo, ainda têm uns estimados 6,3 biliões de dólares escondidos em contas offshore.
No total, as famílias milionárias dos Estados Unidos têm pelo menos 45,9 biliões de dólares de riqueza, encontrando-se a maioria desta riqueza nos 0,1% (um décimo de um por cento) da população com maiores rendimentos.
Se tudo isto não fosse suficientemente obsceno, para melhor demonstrar de que forma a economia global tem vindo a ser completamente manipulada, a análise da Deloitte afirma, com base nas tendências actuais, que as famílias milionárias dos Estados Unidos verão a sua riqueza aumentar 225% para 87,1 biliões de dólares em 2020. Tendo em conta a riqueza escondida em contas offshore, prevê-se que tenham mais de 100 biliões de dólares no total na próxima década.
A maioria das pessoas nem sequer consegue compreender quanto é 1 bilião de dólares, quanto mais 46 biliões. Um bilião é igual a 1 milhão de milhões ou 1.000.000.000.000 dólares. Para pôr isto em perspectiva, no ano passado o custo total de alimentar a totalidade dos 40 milhões de americanos com senhas de alimentação foi de 65 mil milhões de dólares.
Consideremos agora, de acordo com os últimos dados do IRS (Internal Revenue Service), que apenas 0,076% da população, menos de 0,1%, ganhou mais de 1 milhão de dólares em 2009.
O gráfico abaixo, baseado em dados do Tax Policy Center, mostra qual o rendimento ganho por uma família num dado percentil na distribuição de rendimentos:

O escalão mais elevado do rendimento anual é de 50 milhões de dólares ou mais. Apenas 74 americanos se encontram neste grupo de elite. O rendimento médio nesta categoria foi de 91,2 milhões de dólares em 2008. Por muito surpreendente que isso seja, em 2009 tiveram em média 518,8 milhões de dólares cada ou cerca de 10 milhões de dólares por semana. Isto significa que, nas profundezas da recessão, os 74 americanos mais ricos aumentaram os seus rendimentos mais de 5 vezes no espaço desse ano. Estas 74 pessoas fizeram mais dinheiro do que 19 milhões de trabalhadores combinados.
Em contexto, de um modo geral, as 400 pessoas mais ricas dos Estados Unidos têm tanta riqueza como 154 milhões de americanos combinados, ou seja, 50% do país inteiro. Os 1% da população dos Estados Unidos com maiores rendimentos têm actualmente um recorde de 40% de toda a riqueza e têm mais riqueza do que 90% da população combinada.
Quem governa a América? Revelação dos 0,1% com maiores rendimentos
Segue-se uma análise de um gestor de investimento com clientes mega-ricos que decompõe os 0,5% da população com maiores rendimentos, recentemente publicada por William Domhoff, professor de sociologia e autor de Who Rules America?:
“Contrariamente às pessoas que se encontram na metade inferior dos 1% com maiores rendimentos, as que se encontram na metade superior e, em especial, nos 0,1% com maiores rendimentos, podem muitas vezes contrair empréstimos por quase nada, manter os lucros e a produção no estrangeiro, manter bens pessoais em paraísos fiscais, escapar dos mercados e economias em queda e influenciar a legislação nos Estados Unidos. Têm acesso ao que há de melhor em empresas de contabilidade, advogados fiscais e outros, numerosos consultores, gestores de riqueza privados, uma rede de outros amigos ricos e poderosos, lucrativas oportunidades de negócio e muitos outros benefícios.
As pessoas que fazem parte dos 0,1% com maiores rendimentos têm antecedentes muito diversos, mas é pouco frequente encontrar alguém cuja riqueza não tenha sido adquirida através de participação directa ou indirecta nas indústrias financeira e bancária…. A maioria dos graves danos económicos com que os Estados Unidos se debatem actualmente foi infligida pelos 0,1% com maiores rendimentos que muito beneficiaram com isso…. Por exemplo, no 1.º trimestre de 2011, as principais empresas da América declararam um crescimento de lucros de 31% e uma redução de impostos de 31%, esta última devida à externalização de lucros para países com taxas de imposto reduzidas…. O ano de 2010 foi um ano recorde em termos de remunerações em Wall Street, enquanto a remuneração dos CEO das empresas aumentou mais de 30%.…
Em 2010, uma dúzia de grandes empresas, incluindo a GE, a Verizon, a Boeing, a Wells Fargo e a Fed Ex, pagaram taxas de imposto dos Estados Unidos entre
-0,7% e -9,2%. A produção, o emprego, os lucros e os impostos foram todos externalizados….
Podia continuar por aí fora, mas o resultado final é este: Um conjunto altamente complexo e muito discreto de leis e isenções de leis foi criado por aqueles que se encontram nos limites superiores do sistema financeiro dos Estados Unidos. Permite-lhes proteger e aumentar a sua riqueza e influenciar significativamente os processos políticos e legislativos dos Estados Unidos.
Têm verdadeiro poder e verdadeira riqueza. Os cidadãos ordinários pertencentes aos 99,9% com menores rendimentos em geral não estão cientes destes sistemas, não compreendem o seu funcionamento, têm poucas probabilidades de participar neles e têm poucas possibilidades de entrar para os 0,5% com maiores rendimentos, e muito menos ainda para os 0,1% com maiores rendimentos….
… o sonho americano de enriquecer não passa de uma fantasia bem vendida, que mantém os 99,5% com menores rendimentos na esperança de melhores dias e previne a instabilidade social e política. As probabilidades de entrar para os 0,5% com maiores rendimentos são mínimas e a porta mantém-se firmemente fechada pelos que estão dentro.”
Para entrar para os 0,01% (um centésimo de um por cento) da população com maiores rendimentos, é necessário ter um rendimento familiar superior a 27 milhões de dólares por ano.
Se olharmos para alguns dos principais intervenientes que causaram esta crise económica, veremos que se encontram entre este grupo da Elite Económica.
O antigo CEO da Goldman Sachs e Secretário do Tesouro de Bush, Hank Paulson, já tinha acumulado pelo menos 700 milhões de dólares antes de passar para o Tesouro dos Estados Unidos em 2006. O actual CEO da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, e outros executivos de topo da Goldman Sachs acabaram de receber 111,3 milhões de dólares em bónus. Blankfein já levou para casa 24,3 milhões de dólares, como parte de um bónus de 67,9 milhões de dólares que lhe foi concedido. O presidente da Goldman, Gary Cohn, levou para casa 24 milhões de dólares, como parte de um bónus de 66,9 milhões de dólares que lhe foi concedido. O CFO da Goldman, David Viniar, e o antigo presidente conjunto Jon Winkelried levaram ambos para casa mais de 20 milhões de dólares em bónus.
O CEO do Citigroup, Vikram Pandit, já levou para casa 80 milhões de dólares, daquilo que pode eventualmente totalizar mais de 200 milhões de dólares em remunerações e bónus. No topo da lista encontra-se o CEO do JP Morgan Chase, Jamie Dimon, que já levou para casa 90 milhões de dólares.
Se acha que as pessoas neste nível de rendimentos não controlam o processo políticos dos Estados Unidos é porque não está atento. Depois de provocarem esta crise económica, fizeram com que o governo lhes desse biliões de dólares em apoio com dinheiro dos contribuintes e, em seguida, depois de ficarem com os nossos dólares dos impostos, concederam a si próprios bónus que são um recorde histórico. O ano de 2009 foi um recorde histórico para os executivos de Wall Street, que arrecadaram um total de 145 mil milhões de dólares. E depois, em 2010, elevaram ainda mais a fasquia, quebrando o recorde histórico estabelecido no ano anterior extraindo mais 149 mil milhões de dólares. A audácia de tudo isto é espantosa.
Encontrar pessoas mais grotescamente gananciosas do que os executivos de Wall Street pareceria ser impossível. No entanto, os CEO dos seguros de saúde não ficam atrás. Conforme relatou o LA Times:
“Os chefes da Cigna, Humana, UnitedHealth, WellPoint e Aetna receberam cerca de 200 milhões de dólares em remunerações em 2009, de acordo com um relatório, ao mesmo tempo que as empresas procuravam obter aumentos de taxas que chegavam aos 39%….
H. Edward Hanway, antigo Presidente Executivo da Cigna, sediada em Filadélfia, ocupou o primeiro lugar da lista de executivos mais bem pagos, graças a um pacote de reforma no valor de 110,9 milhões de dólares. A Cigna pagou a Hanway e ao seu sucessor, David Cordani, um total de 136,3 milhões de dólares no ano passado….
Ron Williams, CEO da Aetna Inc. sediada em Hartford, Connecticut, ganhou cerca de 18,2 milhões de dólares de remuneração total, inferior aos 24,4 milhões de dólares de 2008.”
O CEO da Aetna, Ron Williams, recuperou do seu ano em baixa em 2009 fazendo 72 milhões de dólares em 2010.
Considerando este nível de especulação obscena na indústria dos cuidados de saúde, não é de surpreender que os americanos paguem mais pelos cuidados médicos do que qualquer outro país do mundo. De facto, os americanos são forçados a pagar o dobro da maioria dos países e a obter cuidados de qualidade inferior em contrapartida. As empresas de seguros de saúde já admitiram que têm estado a colher lucros inesperados porque as pessoas com planos de seguros de saúde continuam sem dinheiro para ir ao médico e deixaram de o fazer, a não ser em casos absolutamente urgentes. Com bem mais de 50 milhões de pessoas sem dinheiro para seguros de saúde e com os custos a disparar, não surpreende que mais de 60% de todas as insolvências pessoais sejam o resultado de contas médicas. Efectivamente, 75% das falências médicas apresentadas vêm de pessoas que têm seguros de saúde.
Neste grupo da Elite Económica, há também as companhias petrolíferas que lucram com as guerras, sendo elas próprias em grande parte detidas pelos grandes bancos de Wall Street. As cinco maiores companhias petrolíferas, enquanto os preços do gás disparavam, colheram 36 mil milhões de dólares de lucros no trimestre passado. Estas companhias também receberam em média 6 mil milhões de dólares por ano em subsídios fiscais.
Desagravamentos fiscais para os ricos, cortes orçamentais para o resto de nós
Para demonstrar ainda melhor de que forma os mega-ricos assumiram o controlo do nosso processo político, considere que os 400 americanos mais ricos pagaram 30% dos seus rendimentos em impostos em 1995, mas actualmente pagam apenas 18%.
De facto, 1470 americanos ganharam mais de 1 milhão de dólares em 2009 e não pagaram quaisquer impostos.
A taxa média do imposto dos milionários foi 22,4% em 2009, uma descida em relação aos 30,4% em 1995. O milionário médio poupa 136.000 dólares por ano devido a taxas de imposto reduzidas.
Olhando para a taxa do imposto numa perspectiva a longo prazo, a quantidade de dinheiro que as pessoas mais ricas e as empresas mais lucrativas pagam em impostos desceu drasticamente desde 1955. O imposto sobre as sociedades representou 27,3% da receita federal em 1955. Em 2010, o imposto sobre as sociedades representou apenas 8,9% da receita federal. Os impostos sobre as sociedades representaram 4,3% do PIB geral em 1955, em 2010 representaram apenas 1,3%.
Ataques sistémicos deliberados
O aumento drástico da desigualdade económica e da pobreza, juntamente com o aumento sem precedentes dos 0,1% da população com maiores rendimentos, não aconteceu por engano. É o resultado concebido de políticas deliberadas governamentais e económicas. É o resultado de as pessoas mais ricas do mundo e de os bancos “demasiado grandes para fracassarem” utilizarem o sistema de financiamento e lobbying das campanhas para comprarem políticos que aplicam políticas concebidas para explorar 99,9% da população para seu ganho financeiro. Chamar ao que se está a passar um “ataque terrorista financeiro” aos Estados Unidos não é utilizar uma hipérbole, é o termo técnico para o que está actualmente a suceder.
Tal como disse certa vez Che Guevara, um homem que se opôs à elite financeira global, “a quantidade de pobreza e sofrimento necessária para a emergência de um Rockefeller, e a quantidade de depravação que a acumulação de uma fortuna dessa grandeza implica, são deixadas fora de cena, e nem sempre é possível fazer as pessoas, em geral, ver esta situação”.
Quando dezenas de biliões de dólares passam deliberadamente para os 0,1% da população global com maiores rendimentos, enquanto grandes percentagens vivem na pobreza, temos de concluir, em termos técnicos, que um estado Neo-Feudal-Fascista está sobre nós. Os ricos nunca foram tão ricos, enquanto os políticos a quem eles pagam fazem cortes orçamentais destinados aos pobres e à classe média, e fazem disparar o custo das necessidades básicas.
Podem chamar-me extremista, mas a realidade desta situação é extrema, estas pessoas, os 0,1% com maiores rendimentos globais, são fascistas genocidas que levam a cabo um holocausto. O fascismo evoluiu. Não há necessidade de sujarmos as mãos com sangue enquanto arrebanhamos as pessoas e as colocamos em campos de concentração quando o podemos fazer através da política económica, sentados num jacuzzi num avião da empresa, ou com um Armani de três peças feito à medida, completamente separados e isolados do mundo que pilhamos.
No entanto, tal como sucede com todos os impérios, a ganância e a arrogância fazem-nos ir longe demais. As massas massacradas chegam a um ponto em que, literalmente, não conseguem viver nestas condições. Este desespero espalha-se entre as populações até atingir uma massa crítica e então, de repente, elas revoltam-se e o império começa a ruir… Tunísia, Argélia, Egipto, Israel, (Norte de África, Médio Oriente), Albânia, Grécia, Espanha, Grã-Bretanha (Europa), Wisconsin…
A Elite Económica está a ir longe demais e o seu império está a ruir.
A revolta global descentralizada começou…
Bem-vindos à Terceira Guerra Mundial.
De que lado da história querem estar?
Tal como disse uma vez um velho amigo sensato, “você não pode ser neutro num comboio em movimento”.
11 de Agosto de 2011
http://daviddegraw.org/2011/08/who-rules-america-economic-elite-have-at-least-45-9-trillion-in-wealth-revealing-the-economic-top-0-1/
Corretor diz a verdade e a BBC fica sem fala









